Débora Lima e Mariana Conti | Cartão vermelho para a intolerância

Débora Lima e Mariana Conti | Cartão vermelho para a intolerância
Crédito da foto: Guarani Press

Em menos de dois meses tivemos no futebol contrastantes exemplos que refletem o nível do debate da nossa sociedade sobre os direitos humanos: a volta do goleiro Bruno, com grande recepção de sua torcida, entrando em campo ovacionado e sob gritos de incentivo, e a volta do meio-campista Richarlyson (foto), cheia de polêmicas e manifestações de preconceito, chegando ao ponto da sede do clube para o qual foi contratado, o Guarani, ser atacada a bombas por sujeitos contrários à contratação.

A diferença entre os dois: o goleiro Bruno, recém-saído da prisão por matar a mãe de seu filho e jogar o corpo aos cachorros para não pagar pensão, um bárbaro caso de feminicídio; Richarlyson, um atleta dedicado, multicampeão, porém ainda que tenha negado é “suspeito” por homofóbicos em relação à sua orientação sexual. Esses exemplos condensam com evidência a dimensão dos desafios que temos pela frente em uma sociedade educada para aceitar a violência contra as mulheres, mas não tolerar a livre manifestação de gênero e orientação sexual.

Não é a primeira vez que o jogador Richarlyson sofre com preconceito e calúnias. Na maioria dos clubes por onde passou no Brasil, foi alvo de ataques homofóbicos, inclusive de sua própria torcida. Além da hostilização que sofreu jogando pelo São Paulo, vale lembrar que, quando estava em vias de ser contratado pelo Palmeiras, alguns torcedores fizeram uma lamentável manifestação levando uma faixa com os dizeres “a homofobia veste verde”. Em seguida, a diretoria alviverde desistiu do negócio justificando que ele era um excelente jogador, porém não seria absorvido pela torcida.

Houve também o caso em que um dirigente do futebol afirmou indevidamente em um programa de televisão que Richarlyson seria homossexual. O jogador recorreu à Justiça por injúria, mas perdeu a ação e obteve do Juiz do caso a seguinte declaração: “Futebol é jogo viril, varonil, não homossexual… Se fosse homossexual porém, melhor seria que abandonasse os gramados…” Essas palavras refletem a forma como o futebol é visto em nossa sociedade: um esporte de homens para homens, em que qualquer atitude que não seja vista como extremamente masculina é motivo de repúdio.

Segundo o Prof. Dr. Flávio de Campos, do Núcleo Disciplinar de Estudos sobre Futebol e Modalidades Lúdicas (LUDENS) da USP, o futebol é importante na construção da masculinidade, reforçando os estereótipos de agressividade, truculência e heteronormatividade. Por seu grande apelo em todo o país, este esporte se tornou ainda mais essencial na demarcação dos papéis entre homens e mulheres, servindo como um reprodutor das opressões naturalizadas através de piadas ou rivalidades. O futebol, assim como qualquer esporte ou profissão, não é exclusivo de um gênero ou de apenas um perfil de pessoas. Para acabar com a intolerância recorrente, precisamos desconstruir a ideia de papéis sociais, através da qual meninas e meninos são obrigados a cumprir um padrão rígido de comportamento e são expostos à violência caso não o façam.

Nosso poder público infelizmente não tem dado respostas a esses episódios. Ao contrário disso, autoridades e figuras públicas da cidade veicularam declarações de desrespeito e incitação à intolerância. Além disso, tramitam projetos contrários à garantia dos direitos humanos, como a “emenda da opressão” e o “escola sem partido”, que visam coibir o debate saudável sobre temas fundamentais como o machismo e a LGBTfobia.

Aos defensores desse projeto de censura, fica a pergunta: como é possível não se posicionar politicamente diante de casos absurdos de preconceito como os que temos visto em nossa cidade? A omissão também é posição – aquela dos que não se incomodam e compactuam com o grau de intolerância que atingimos. Precisamos de uma escola sem intolerância, para que nossas crianças desde cedo aprendam a respeitar todas as diferenças e a se posicionar contra toda forma de violência.

Ao jogador Richarlyson, prestamos nossa solidariedade pelas calúnias e ofensas sofridas. Sua garra e determinação sempre demonstradas por onde passou, nos inspiram para que possamos transformar a barbárie de uma sociedade cega pelo ódio em luta por dias melhores. Em um mundo em que se tornou natural ver um feminicida aplaudido pelo público e um verdadeiro craque humilhado, precisamos de muito mais Richarlysons.

Débora Lima, militante do Coletivo LGBT Cores e torcedora do Guarani, e Mariana Conti, vereadora de Campinas pelo PSOL. 

 

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Equipe da Secretaria de Comunicação Nacional