Áurea Carolina | Vidas negras importam

Áurea Carolina | Vidas negras importam

Maria Eduarda Alves tinha apenas 13 anos e foi assassinada com um tiro na cabeça, um na nuca, um nas costas. Pela narrativa de seu professor, que ganhou as redes, sua morte escapou de ser apenas mais um número a compor a estatística alarmante que revela que, no Brasil, a cada 23 minutos, um jovem negro é assassinado. Maria Eduarda, nos contou Alcidesio, tinha cabelo black, tinha sonhos, tinha trajetória, era amada, existia.

Cinco dias depois, Hosana de Oliveira Sessassim, mesma idade, também negra, foi assassinada por um tiro disparado acidentalmente por um traficante, segundo a imprensa.

Tá lá o corpo estendido no chão. “Como seguimos vivendo depois disso?”, me perguntaram no Facebook. Como seguir após Cláudia Silva Ferreira ter sido arrastada, Luana dos Reis espancada e Edeuzita Cerqueira alvejada? Como seguir se ainda nem sabemos onde está Amarildo? Volto a esse tema em espaço tão curto de tempo porque nossa urgência por justiça, por vida, por direitos, por dignidade, por seguir, é cotidiana, imposta pelo genocídio estabelecido como política de Estado desde a fundação do país.

Na esteira da crise econômica, da retirada de direitos e da fatídica “guerra às drogas”, a população negra e pobre é ainda mais vulnerabilizada. O acirramento da violência contra nós no Rio de Janeiro ganhou as manchetes dos últimos dias, mas nenhum território é seguro quando se é negra e negro no Brasil. Em Belo Horizonte, Madu Carvalho, a jovem acusada injustamente por um crime que não cometeu, tornou-se símbolo tanto da criminalização da juventude negra e periférica na capital mineira quanto da resistência antirracista. No dia 4 de abril, o processo contra Madu foi arquivado e, consequentemente, a tornozeleira eletrônica retirada e a prisão domiciliar revogada.

Uma vitória importante, conquistada por meio da mobilização de uma rede de movimentos, ativistas, advogadas e advogados populares, empenhada em sua defesa e na visibilidade do caso. Quantas são as pessoas negras, na mesma situação de Madu, que não encontram justiça? Quem são elas, quais são seus sonhos interrompidos, suas trajetórias trespassadas, seus amores que também choram?

É difícil seguir, mas resistiremos e seguiremos juntas!

Sobre o autor

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Áurea Carolina é vereadora em Belo Horizonte (MG) pelo PSOL e ativista do movimento Muitxs Pela Cidade Que Queremos