Soltando o verbo: Segurança Pessoal e Direitos Humanos

Todos, por óbvio, soubemos das mortes dos jovens no Rio olímpico, eleitoral e seguro de Paes e Cabral. As vítimas do escárnio: Glauber Siqueira (17), Christian Vieira (19), Patrick Machado (16), Douglas Ribeiro (17), Josias Searles (17), Victor Hugo (16).

Mais uma chacina de pobres, negros… favelados. O de sempre! Se não eram bandidos, eram drogados. Mesmo se não o fossem, seguiriam como meros favelados.

Aliás, note-se, chacina é sempre coisa que envolve pobres. Essa nomenclatura não se utiliza quando se fala de nobres. Nas natas da sociedade, quando algo desse tipo acontece, as definições são mais sofisticadas. Fala-se da ação criminosa de serial killer, de assassinatos em massa. Os do mal matando os do bem. Mas isso não vem ao caso, vem?

Aliás, isso – mortes dessa estirpe -, quando ocorre no varejo, nem sempre vira notícia, diria o velho Chico, o da MPB, o artista. Ou o caso é tratado como se fossem, os mortos, meliantes que mereciam morrer. Punguistas – tinham antecedentes, indigentes, suspeitos, com seus grossos cordões de lata doirada no peito. Perfeito, marcaram touca, tinham seus narizes nervosos muito próximos da boca.

É… tem muita gente boa, em todas as camadas da sociedade, inclusive entre os “meus”, diga-se de passagem, que acha que bandido tem mesmo é que morrer. Pobres, eles não sabem o que fazem ou têm pouco, muito pouco a dizer.

Dá dó. Pena. Pena de morte. É pobre, é favelado, é preto, não branco, tá de bobeira na área? Esculacha, senta o dedo, manda bala, joga na vala. É bandido e merece morrer. Abafa o caso e nisso não mais se fala.

E os ouvintes-leitores-telespectadores – nem todos, vejam – preocupados com seus próprios umbigos surdos, seguem sua vidinha vadia: – não é comigo, não é com os meus. Enquanto eles estiverem se matando…

E a fila segue andando. O bonde, o rodo passando. A vida desabando.

É… enquanto o morticínio ocorre no interior das comunidades, tendo como vítimas os próprios moradores, apenas gerando estatísticas desinteressantes, sem comprometer os índices gerais de urbanidade, tudo certo.

O abastado, o esperto, então finge que não vê, tapa o nariz e vai romanceando o que é de resto. – Sou um bom cidadão, um ser honesto. Compro, logo evito, por isso mesmo me presto.

Vai ao teatro, vai ao cinema… torce pelo Mengo – de maioria inobre – mas, na noite que brilha, alucina e aliena, vai azarar uma vagabunda nas belas sarjetas de Ipanema.

O que importa, para alguns antolhados, é o que a mídia grande e elitista estampa na página primeira: – alunos de favelas com UPPs rendem mais. Mais pra quem, cara pálida? Tenhamos um cadinho de vergonha na cara e vejamos o que nossas crianças e jovens aprendem. Nesse caso, as estatísticas não mentem. Infelizmente, em termos regionais, nacionais e até internacionais, estamos formando um bando de analfabetos funcionais.

E, o pior, pra seguir servindo a essa elite desavergonhada e voraz. Isso, quando é pra dizer as verdades, a imprensa burguesa não traz.

É como se fosse uma guerra genocida – pleonásmica, portanto – num país alheio, bem distante de nossas consciências pseudo-socialistas. Somos todos autistas?

Quando se trata da vida na favela… a vida não é fácil. Pode até, por vezes, ser bela. Mas ela não se confunde, de forma alguma, com o enredo de uma novela.

E, como não podia deixar de ocorrer – pois parte da sociedade hipócrita implora – o truculento BOPE invadiu a favela, aterrorizando, ainda mais, a vida dos moradores. Vêm sequelas.

Sequelas que já estão incrustadas na alma dessa gente em abundância. Que já sofre com o descaso do Estado, com o preconceito da maioria da sociedade e com sua própria “ignorância”.

Aos que ainda creem, por qualquer motivo entorpecedor ou comodista, na eficácia das UPPs, como instrumento de “pacificação” das comunidades, abram o olho. Ponham suas hipocrisias de molho.

Esse fato escabroso e muito do que vem ocorrendo nas periferias do Rio, no que tange à violência, é consequência direta da competente, eficaz e midiática campanha de ocupação militarizada das favelas, com o intuito, quase que exclusivo, de varrer a pobreza e suas mazelas, pra debaixo dos tapetes. E que o pobre se dane, meu camarada, e vá pro cacete.

Ricardo Crô é Secretário de Comunicaçâo da Associação dos Moradores da Comunidade Coréia-Trapicheiro

Fonte: http://www.socialismo.org.br

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