Síria: Militarização, intervenção militar e ausência de estratégia

*Por Gilbert Achcar – Traduzido por Eduardo d´Albergaria

Fui convidado à participar do encontro da oposição Síria, que se realizou nos dias 8 e 9 de outubro na Suécia, próximo à capital Estocolmo. Um conjunto de ativistas, homens e mulheres, que atuam na Síria e no estrangeiro, se reuniram com personalidades proeminentes do Comitê de Coordenação Sírio (que vieram da Síria para a reunião), com a presença do membro mais importante do Conselho Nacional Sírio (CNS), seu presidente, Burhan Ghalioun.

Os organizadores da conferência me convidaram para falar sobre o tema da intervenção militar estrangeira na atual situação síria. Minha palestra foi recebida com interesse e me solicitaram que a escrevesse (eu orientara minha fala apenas por tópicos escritos). Eu prometi fazê-lo, mas a agenda tribulada me impediu de cumprir esta promessa até o momento.

Depois veio a onda de eventos dos últimos dias na cena Síria e a agudização do tom do debate em torno da intervenção militar e da militarização da crise, que foram dois temas de minha fala na Suécia. Estes desdobramentos me levaram a cumprir minha promessa, antes que fosse tarde demais. Portanto vou desenvolver aqui a análise que expressei na Suécia, atualizada com comentários sobre os eventos mais recentes relacionados com o tema.

Minha fala na Conferência de outubro foi precedida por uma pergunta feita por um dos participantes a Burhan Ghalioun sobre sua posição, ou do CNS, frente aos pedidos de intervenção militar na Síria. Ghalioun respondeu que essa questão não tem sido debatida porque não há, no momento,  um país que queira intervir militarmente na Síriae que “quando estivermos frente a esta disposição, nós adotaremos a posição adequada”.

Comecei meu discurso salientando que a oposição síria precisa definir uma posição clara sobre a questão da intervenção militar estrangeira, já que esta posição terá grande influência para que esta intervenção ocorra ou não. A relutância a respeito de uma intervenção direta, que hoje vemos em parte dos países ocidentais e da região, pode se alterar caso os pedidos de intervenção feitos em nome da oposição síria aumentem.

Foi o pedido de intervenção militar do Conselho Nacional Líbio, no início de março, que preparou o caminho para um pedido similar pela Liga Árabe, e uma resolução subsequente do Conselho de Segurança das Nações Unidas. Se a oposição líbia tivesse se oposto a uma intervenção militar direta, em todas as suas formas (ao invés de uma oposição apenas a uma intervenção terrestre e uma solicitação de apoio aéreo como fizeram), a Liga Árabe não haveria buscado uma intervenção e nem essa ação teria sido sancionada pelas Nações Unidas.

Líbia e os Custos da Intervenção Militar Estrangeira

Na minha palestra, levei em conta as lições da experiência líbia como alguém que participou dos debates sobre esta. Como a imensa maioria do povo árabe, expressei minha compreensão a partir do fato de que os rebeldes líbios foram compelidos a apelar pelo apoio estrangeiro para  evitar o massacre indiscriminado que poderia ocorrer se as forces de Kadafi dirigissem um ataque contra os redutos da insurreição em Bengasi, Misrata e outras áreas, já que faltavam aos rebeldes meios militares para repelir um ataque como esse naquele momento.

Nós atribuímos toda a responsabilidade sobre Kadafi por criar as condições da intervenção estrangeira, enquanto advertimos os rebeldes líbios contra qualquer ilusão a cerca das intenções das forças ocidentais que estavam intervindo ostensivamente a seu favor. De fato, a intervenção militar estrangeira no Estado Líbio se deu com um preço elevado que pode ser resumidos da seguinte forma:

– O preço político imediato da intervenção estrangeira foi que ela permitiu a Kadafi se colocar como o representante da soberania nacional e rotular os rebeldes como agentes do imperialismo ocidental. Isto influenciou um segmento da sociedade líbia, ainda que limitado.

– O preço político mais grave foi que as potências interventoras se esforçaram para capturar a capacidade de decisão dos rebeldes líbios. Elas não se limitaram a barrar o ataque contra os redutos da insurreição e evitar que Kadafi usasse seu poder aéreo. Foram muito além disso, destruindo a força aérea líbia (os estados ocidentais, especialmente França e Inglaterra,  estão ansiosos para vender armas para a Líbia pós-Kadafi), assim como uma parte significativa da infraestrutura e prédios oficiais (os Estados ocidentais, junto com a Turquia, começaram a competir pelo mercado da reconstrução líbia mesmo antes da queda do regime de Kadafi). As potencias ocidentais se negaram a proporcionar aos rebeldes líbios as armas que eles haviam urgente e insistentemente requisitado para poder seguir na libertação de seu país sem intervenção estrangeira direta. Armas foram enviadas (pelo Qatar e França) apenas durante as últimas etapas da batalha. Estas limitadas introduções de armas  apressaram a queda do regime de Kadafi, após um longo impasse em vigor.

– O objetivo das potências ocidentais era se impor como os agentes principais na guerra contra o regime de Kadafi para poder guiá-la. Elas queriam desenhar um roteiro para o pós-Kadafi e inclusive estabeleceram um comitê internacional para este propósito. Eles também tentaram, por um tempo, chegar a um acordo com a família Kadafi pelas costas do Comitê Nacional Líbio. Como resultado, o destino da Líbia estava sendo escrito em Washington, Londres, Paris e Dora, mais do que pela própria Líbia, antes da libertação de Trípoli. Sem dúvida, a aspiração dos Estados ocidentais em controlar a situação na Líbia depois de kadafi foi extremamente ilusória, exatamente como esperávamos. No entanto, isso hoje provocou um grande caos na Líbia, agravado pela intromissão estrangeira, seja ocidental ou regional.

Síria: Entre a Líbia e o Egito

No entanto, a impressão que prevalece atualmente é de que a intervenção estrangeira impediu a aniquilação do levante líbio, que, se tivesse ocorrido, teria acabado com o processo revolucionário por toda a região árabe. A intervenção permitiu que os rebeldes líbios libertassem seu país das garras de seu brutal ditador com um custo que não tem comparação com o preço pago pelos iraquianos na sua libertação do regime tirânico de Saddam Hussein mediante uma invasão estrangeira. A ocupação do Iraque está finalmente chegando ao fim depois de oito miseráveis anos, durante o curso dos quais o país chegou ao fundo do poço e pagou um exorbitante preço material e humano, apenas para encarar um futuro obscuro e ameaçador.

O resultado dessa comparação entre Líbia e Iraque é que, enquanto o segundo causou repulsa aos olhos dos sírios, o exemplo líbio incitou em muitos o desejo de imitá-lo. Isso se reflete no aumento de pedidos por intervenção militar internacional depois da libertação de Trípoli, ao ponto de se convocar um dia de mobilização para o 28 de outubro “a sexta feira da Zona de Exclusão Aérea”.

Se equivoca profundamente quem imagina que o cenário Líbio poderia se repetir na Síria.  A oposição síria deve estar consciente que o custo de permitir uma intervenção militar estrangeira direta na Síria (diferente de uma intervenção indireta, como o fornecimento de armas) será muito mais alto do que no caso da Líbia, por diversas razões. A mais importante delas pode ser resumida da seguinte forma:

A situação militar na Síria é muito diferente da que se verificou na Líbia – onde os centros urbanos estão frequentemente separados por vastas extensões de território quase desértico. Nessas circunstâncias, o poder aéreo se torna essencial, especialmente porque as áreas controladas pelos rebeldes líbios praticamente não tinham apoiadores do regime. Assim, Kadafi recorreu ao poder aéreo na sua ofensiva contrarrevolucionária, e o apoio aéreo estrangeiro foi, portanto, muito efetivo para proteger as áreas rebeldes e limitar o movimento das forças do regime fora dos territórios habitados, tudo isso com um custo relativamente limitado de vidas civis. De outra forma, a densidade da população Síria é muito maior do que na Líbia, e os apoiadores e opositores ao regime estão muito mais misturados. O que impede o regime sírio de fazer vasto uso de ataques aéreos. Portanto, uma zona de exclusão aérea sobre a Síria teria consequências muito limitadas se permanecesse como zona de exclusão aérea num sentido mais estrito, ou teria consequências devastadoras, com mortes e destruição, se adotasse a forma de uma guerra aérea total, como aconteceu na Líbia.  Já que as capacidades defensivas do exército sírio são muito mais significativas do que as das forças de Kadafi, a escala e intensidade dos combates seria muito maior na Síria, sem mencionar que o regime sírio não está isolado como estava Kadafi e que uma intervenção militar estrangeira na Síria iria inflamar toda a região, que nada mais é do que um barril de pólvora.

Nenhuma cidade síria enfrenta atualmente o perígo de um massacre de grande escala como ocorreu em Bengasi. Nem mesmo pode-se comparar com a situação da cidade síria de Hama em 1982, quando o regime de Assad pôde isola-la do resto do país.

A força do levante sírio se localiza na ampla extensão que ela adquiriu, e no fato de que os rebeldes não cometeram o equivoco de pegar em armas, que, se tivesse acontecido, teria debilitado o momento do levante popular e teria permitido ao regime elimina-lo mais facilmente.

Até agora, as formas de luta invocadas pelos rebeldes sírios, como os protestos noturnos e as manifestações das sextas-feiras (não por razões religiosas, mas porque as sextas-feiras são dias de folga oficiais e é difícil para o regime impedir que as pessoas se reúnam em mesquitas), evitam que a maioria dos participantes fique exposta. Esta forma de protesto, no estilo guerrilheiro, é o método adequado quando um levante popular enfrenta uma repressão brutal por parte de uma força militar opressiva.

Diferente do regime caricaturesco de Kadafi, que anos atrás se voltou para estabelecer uma forte cooperação econômica, de segurança e inteligência com diversos Estados ocidentais, o regime sírio, aos olhos dos Estados Unidos, ainda é um obstáculo aos seus projetos na região, já que é aliado do Iran e do Hezbollah e dá suporte a uma gama de forças palestinas que se opõem à capitulação patrocinada pelos Estados Unidos.

Reconhecer esta realidade não sugere, de forma alguma, que alguém deva se abster de apoiar o clamor popular por democracia e direitos humanos, seja na Síria ou no Iran. Isso requer, no entanto, que seja levada em consideração. Da mesma forma que a oposição iraniana fez quando rejeita completamente a intervenção militar estrangeira nos assuntos de seu pais e defendeu o direito do Irã desenvolver energia nuclear frentes às ameaças israelenses-americanas que tentam impedir de fazê-lo, alegando que o Iran está desenvolvendo armas nucleares.

A oposição síria critica corretamente o regime por seu oportunismo, lembrando sua intervenção no Líbano em 1976 contra a resistência palestina e o Movimento Nacional Libanês, e que o regime compôs a coalizão liderada pelos Estados Unidos na guerra de 1991 contra o Iraque. Aqueles que criticam a dubiedade do regime sírio com a defesa da causa nacional não podem concordar com a afirmação de que se deve combater os “agentes” das potências ocidentais requisitando intervenção militar destas mesmas potências ocidentais. A oposição nacional não pode permitir que o regime fale mais alto na defesa da causa nacional. E deve compreender que, já que parte do território sírio está ocupado por Israel, com o apoio dos estados ocidentais, não pode procurar ajuda dos inimigos e opressores da Síria. Na medida em que essas potências intervissem, certamente iriam se esforçar para enfraquecer estrategicamente a Síria, como enfraqueceram o Iraque.

Derrubar um regime, não importa que regime, é  um objetivo estratégico cujos meios diferem para cada caso e país. A estratégia depende da composição do regime que os revolucionários estão tentando pôr abaixo.

Vamos considerar as diferenças entre o caso egípcio e o líbio, por exemplo. No Egito o exército regular, enquanto instituição, era e continua sendo a espinha dorsal do regime. O poder de Mubarak emanava e se apoiava no exército, mas ele não o “possuía”. Isso fez com que o levante popular quisesse manter a neutralidade do exército, a fim de derrubar o tirano.  Essa estratégia foi vitoriosa, no entanto alimentou ilusões no ceio das massas de que o exército enquanto instituição, incluindo seus altos escalões, poderia servir desinteressadamente ao povo. Em vez de aprimorar a consciência crítica da população e dos soldados e alerta-los de que a cúpula do exército iria se empenhar em manter seus privilégios e controle sobre o Estado. As principais forças do movimento de oposição, na realidade, contribuíram para disseminar ilusões no ceio das massas. O resultado é que a revolução egípcia permaneceu incompleta. Na verdade, há tantos, ou mais, elementos de continuidade no regime Egito, quanto elementos de transformação.

Na Líbia, por outro lado, Kadafi havia dissolvido a instituição militar e a reestruturou na forma de brigadas vinculadas à sua pessoa, através de laços tribais, familiares e financeiras. Então era impossível contar com a neutralidade dos militares, muito menos esperar atraí-los para o lado da revolução. Foi mais adequado pensar que a forma de derrubar o regime líbio seria inevitavelmente através da derrota de suas forças armadas, em outras palavras: através da guerra. Já que o desequilíbrio de forças militares entre o exército de Kadafi e os rebeldes, praticamente desarmados, era esmagadora. A entrada de um fator externo na equação era inevitável, seja pelo armamento do levante (o melhor cenário) ou através de uma participação direta na guerra entre os rebeldes e o regime, seja pela ocupação do território (o pior cenário) ou pelo bombardeio à distância sem invadir (como de fato aconteceu). O resultado é que as mudanças na Líbia são muito mais profundas que no Egito por conta do colapso geral das instituições do regime de Kadafi. Hoje a Líbia é um país sem Estado, ou seja, sem um aparato que monopolize a força armada, e ninguém sabe quando um Estado será construído ali, ou como ele se parecerá.

Então onde a Síria se encaixa nessa equação estratégica? Na verdade, ela estaria em algum lugar entre o caso Líbio e o Egípcio. Na Síria, assim como na Líbia,  o regime se cercou de Forças Especiais ligadas a ele por famílias, seitas religiosas e privilégios. Elas precisam ser derrotadas para que o regime caia. Em razão disso, o comandante do Exército Livre Sírio, Coronel Riyad Al-As´ad, estava certo quando falou para Al-Sharq Al-Awsat (05/11/11): “qualquer um que pense que o regime sírio vai cair pacificamente está sonhando”.

No entanto, como Israel ocupa uma parte de seu território, a Síria, diferente da Líbia, tem também um exército regular com base no recrutamento universal de jovens do sexo masculino, cujos soldados e oficiais de baixa patente refletem a composição da população síria, de onde suas fileiras são derivadas. Portanto, um dos focos principais da estratégia revolucionária síria precisa ser ganhar as fileiras do exército sírio para o lado da revolução.

O Papel do Exército na Estratégia da Oposição

Se o levante sírio tivesse sido liderado com um pensamento estratégico (e aqui nós vemos os limites das “revoluções de Facebook”) teria tentado estender as redes da oposição no interior do exército, enquanto insistisse para que os soldados não desertassem individualmente ou em pequenos grupos, mas sim no maior número possível. Na ausência de liderança e estratégia, soldados e oficiais começaram a desertar por conta própria e de forma desorganizada. O alcance da insubordinação vem se expandindo nos últimos dois meses e continua a se ampliar. Essas defecções confundiram a oposição política, com alguns criticando os insubordinados por ameaçarem desviar o levante de seu caminho pacífico enquanto outros saúdam os insubordinados ao mesmo tempo em que apelam para que não voltem suas armas para o regime.  Esta última é uma proposta suicida que os soldados insubordinados estão corretos em zombar.

A tarefa estratégica para ganhar os soldados sírios para o lado da revolução não deveria entrar em contradição com as manifestações populares e sua natureza não-violenta. Aqui, novamente, o caso sírio combina elementos das experiências egípcias e líbias, ou seja, multidões de manifestantes pacíficos ao lado de confrontos militares. A não-violência das mobilizações populares era, e continua sendo, um componente básico da dinâmica do movimento, e do seu caráter massivo, incluindo a participação feminina. Essa dinâmica é, em si, um fator decisivo para incitar os soldados a se rebelar contra o regime.

Portanto, o maior dilema estratégico na Síria é como combinar as mobilizações pacíficas das massas com a ampliação da oposição militar e  a confrontação armada, sem a qual as forças do regime nunca irão ser derrotadas e ele não cairá. Ao menos      que se possa contar com a ruptura de alguns oficias de alta patente com o topo da hierarquia do regime, o que forçaria a família governante à fugir  para o Irã. Se isso acontecer, a Síria acabaria em uma posição similar ao caso egípcio, onde uma peça caiu do topo da pirâmide, sem que ela desmoronasse por completo.

Quanto à intervenção militar direta na Síria – seja na forma de uma invasão, seja numa forma limitada de bombardeiro à distância – levaria ao fim das defecções no exército sírio e uniria suas fileiras num confronto que iria convencer aos soldados de que aquilo que o regime vem afirmando desde o início do levante tem sido por todo esse tempo a verdade: de que está enfrentando uma “conspiração estrangeira” que quer subjulgar a Síria . Os pedidos feitos por Riyad al-As´ad, o líder do Exército Livre da Síria, (na entrevista  já citada) por uma intervenção internacional que tenha por objetivo estabelecer uma “zona de exclusão aérea ou marítima” na Síria,  e criar uma “zona de segurança no norte da Síria que o Exército Livre da Síria possa administrar” é, na melhor das hipóteses, uma evidência adicional de falta  de visão estratégica entre a liderança do levante sírio. Os pedidos são também um produto de misto de miopia e reação passional frente à crueldade do regime, que leva alguns dos seus oponentes a almejar aquilo que poderia provocar a uma catástrofe histórica na Síria e em toda a região.

Aqueles que querem a vitória do levante popular sírio por liberdade e democracia de uma forma que fortaleça a pátria, ao invés de enfraquecê-la, precisam formular uma posição sobre essas questões fatais com a máxima clareza. Não é possível simplesmente ignora-las em nome da unidade contra o regime, porque o destino das lutas, e mesmo de todo o país, está ligado a essas questões.

* Gilbert Achcar é professor de Estudos do Desenvolvimento e Relações Internacionais da Escola de Estudos Orientais e Africanos (SOAS, em inglês) de Londres.

Fontes:
*Espanhol: http://www.rebelion.org/noticia.php?id=139752
*Inglês:http://english.al-akhbar.com/content/syria-militarization-military-intervention-and-absence-strategy

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